É claro que é rock?
Estava eu despreocupadamente ouvindo Fiona Apple na sala de estar quando meu pai indagou: "Que tipo de música é essa?". Bem, não faço a mínima idéia. Para não deixar explícita a mais completa ausência de cultura musical que me constitui, respondi: "Em geral, gosto de rock'n'roll". Um belíssimo subterfúgio, convenhamos.Tenho por hábito classificar absolutamente tudo que ouço como rock'n'roll, talvez pela abragência conquistada pelo termo. Analisando friamente, no entanto, tenho plena ciência de que Dee Lite, Pizzicato Five, Moloko, Björk, Portishead, Jewel e outros encaixam em qualquer partileira, menos na sessão do triunvirato guitarra, baixo e bateria. Sim, eu sei, Portishead é trip hop. Defina trip hop, por gentileza, de forma inteligível. Acho mais prático e mais terraqueamente compreensível dizer que é apenas uma nova vertente do rock.
Tenho dúvidas também quanto a subcategorias do rock'n'roll. Tenho uma vaga impressão de que aquilo que eu costumava conhecer por heavy metal bifurcou-se repetidas e repetidas vezes, de modo que denominar qualquer música do gênero por essa simples alcunha denota a mais intensa ignorância. Speed metal, gothic metal, trash metal, sei-lá-o-quê metal. Esta mesma síndrome de subclassificações contaminou outros veios do rock - ouso dizer que a maior parte deles. Simplesmente não sei localizar-me entre tantas estradas, trilhas, desvios, caminhos, atalhos.
Pergunto-me se é mesmo necessária a existência de tantos rótulos. Devo concordar que facilita apresentações e vendas de discos. "Olá, meu nome é João, sou sagitariano, não como carne e gosto de brit rock". "Onde estão os álbuns de pop rock nacional, por gentileza?". À parte tais vantagens, me parece que a etiqueta serve apenas como delimitador. Algo como uma grade fronteiriça: esses músicos podem ir até aqui. Ai deles se colocarem a ponta do pé do outro lado. Uma coisa muito chata, em suma.
De certa forma, é preciso dizer, minha teoria contra a metodologia científica dos gêneros serve de amparo à minha preguiça de pesquisar. É também um meio de defesa contra aquelas criaturas noturnas insuportáveis que exalam terminologia musical por todos os poros. A moral da história é que eu, pobre de mim, não posso prosseguir considerando que tudo é rock. E eles, pobres deles, não podem prosseguir achando que tudo é algo além de rock.

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